Não todos os meus amigos atuais sabem que no passado eu me dediquei bastante à literatura. Na verdade, o fato de ter escolhido a universidade de Letras não foi pela paixão pelos idiomas, e sim, pela paixão literária.
Antes mesmo da faculdade, fiz um curso de escritura de poemas no Museu Lasar Segal que foi extraordinário. Depois da universidade, na minha vida em Buenos Aires, tive o prazer de fazer mais dois cursos sensacionais, um de escritura de contos e outro de poemas. Também comecei um outro curso de escritura de roteiro para cinema, mas o abandonei pela metade.
No ano passado, quando decidi me dedicar plenamento ao aprendizado de idiomas, abri mão de um projeto literário do qual fazia parte e no qual aprendi muito, o projeto "Clarices". Não me arrependo pois vivemos diferentes etapas de nossas vidas e devemos respeitar cada ciclo. Porém, descobri ao longo dos anos, que mesmo quando me afasto da literatura, a literatura não se afasta de mim. Por isso, durante todos esses mês em que me mantive afastada, senti essa angustia da ausência das palavras. Tentei enganá-la com os escritos no meu Blog, algo que também adoro fazer, no entanto, não é o mesmo.
Hoje decidi me sentar em frente ao computador e não planejei, deixei que as palavras viessem e vieram, um novo conto foi parido, simples e breve, como desejava. Ainda não tive tempo de fazer correções, mas, aqui está ele, recém parido. Se gostarem, comentem, isso ajuda tanto! Boa leitura.
Quando palavras são pegadas
Cris Sousil 14/06/2022
Caminhar, caminhar, caminhar.
A cada passo uma palavrinha… era de palavras que ela se sentia mendiga.
Desde que aceitara o cargo de colunista no jornal da cidade, escrever deixara de ser apenas um hobby e passara a ser um compromisso semanal. Talvez o vento ou talvez as nuvens, quem sabe, alguém, um fofoqueiro de plantão, tinha levado aos ouvidos dos Deuses da criatividade e da inspiração essa notícia e, eles, tímidos ou fanfarrões, tinham decidido esconder-se. Era a pista de tal esconderijo que ela passou a buscar todas as manhãs enquanto caminhava, com um cigarro apagado na mão.
Ana tinha deixado de fumar há um ano, após uma crise de bronquite asmática tê-la mandado ao hospital, porém, o hábito de segurar um cigarro quando estava nervosa, mesmo se apagado, não tinha se desvanecido.
E assim ia ela, caminhando por uma avenida ruidosa da cidade, sem ouvir buzinas, nem freadas, nem passos apressados, nem suspiros mal humorados. Atenta somente às palavras que vinham, por vezes, sonoras, por vezes escritas no ar poluído, às vezes cheirosas e outras fétidas. Todos os seus sentidos deveriam estar concentrados à caça às palavras.
A tática normalmente funcionava, uma briga de namorados, a filhinha que perguntava ao pai porque o planeta era redondo, algum diálogo interessante era captado pelas anteninhas de Ana e ela então depositava sua atenção nele e sua mente era invadida por ideias que fariam daquela simples troca de palavras, um manjar literário.
Entretanto… hoje… tanto e tanto e nada quanto… quando? Quando os Deuses iam se manifestar e soprar seus vernáculos?
Uma pausa. Seus pés estavam inchados, as pernas exaustas, o humor negro e… miau…
Miau?
Um bichano miúdo, sujo e feio começou a se esfregar entre as pernas de Ana.
Miau…
Ana olhou pra baixo, com um certo asco. E o bicho continuava.
Miau… Atchin!
Um espirro, mais psicológico do que físico, seguido por outro espirro e por outro miau.
Ana se mexeu e voltou a caminhar lentamente, livrando-se do gato.
Deu alguns passos, talvez nove ou dez e olhou para trás e miau.
O gato estava a um passo atrás.
Mais alguns passos incontáveis de Ana e o mesmo ato acossador.
Ana acelerou o passo, e a fera também.
Ana correu, o miúdo também.
Ana e suas pernas longas. O míúdo e suas patas magrelas e curtas.
Finalmente Ana olhou para trás e viu aquele ponto peludo, atrasado, a alguns metros de distância e adivinhou seus olhos chorosos. Um miado quis chegar aos seus ouvidos, mas perdeu-se entre os gritos da cidade.
Ahhhh Ana.
Ana voltou, passos lentos, cabeça movendo-se de um lado a outro, insistindo na negação. Mas a cabeça, os braços e as pernas não se comunicavam. Essas últimas, se dobraram, os braços se esticaram e o bichano foi parar ali, acolhido no calor do corpo de Ana que atchim, foi caminhando e caminhando e, miando o bichano, foram indo e chegando no apartamento da Rua Três.
Naquele mesmo dia Ana voltou a caminhar, foi até o pet shop, deixou lá cerca de 200 reais, e levou com ela caminha, comida, areia e brinquedos. Parou também na farmácia para comprar lencinhos de papel e uma caixa de loratadina.
Naquela mesma noite Ana se sentou frente ao computador, uma coisa peluda no colo, Ana decorou três folhas no documento do Word, as palavras pareciam pequenas pegadas que contavam as aventuras de um gato que saltava nos telhados em uma noite de inverno acompanhado por outros dois festeiros gatos e… miaus, atchim e miaus.















