viernes, 29 de abril de 2022
A tradução e eu.
Os idiomas e eu. A tradução e eu.
Cris Sousil
Minha paixão pelo aprendizado de idiomas começou muito cedo. Aos 10 anos eu já tentava desvendar o que diziam as letras das músicas que vinham nos encartes dos LPs de Julio Iglesias e de Luis Miguel. Na pré- adolescência minhas canções favoritas eram “La nave del olvido” e “Fria como el viento”; um dos meus melhores amigos era o dicionário Espanhol/Português Michaelis.
Foi aí que descobri o paraíso, a biblioteca do Memorial da América Latina, onde o tesouro maior eram os livros em espanhol. Eu os abria e lia e lia e lia, entendia metade, e já era tão mágico. Então comecei a levar o meu amigo, Michaelis, para passar as tardes comigo naquele paraíso hispano.
Cresci leitora e poetisa. Fiz cursos de escrita poética e decidi estudar Letras.
Estudar Letras Português/Espanhol naquela época era algo fora da minha realidade econômica, os preços eram mais elevados e as poucas universidades que ofereciam o curso eram mais distantes. Sendo assim, encarei Letras Português/Inglês. Eu já estudava inglês, não era uma paixão, mas era um aprendizado importantíssimo.
Trabalhar e estudar era tarefa árdua. Foi por isso que quando comentaram sobre a possibilidade de estender um ano para complementar a formação com o diploma de Tradução, eu decidi que não. Finalizei no tempo justo e saí com o meu título e com uma nova profissão: professora de português.
No entanto, tinha um trabalho fixo e seguro e minha experiência como professora eventual não tinha sido animadora. Não entrei no mercado de trabalho, continuei na área administrativa, até decidir me mudar para a Argentina.
Jovem, cheia de energia e de paixão pelo país vizinho, o qual eu já tinha visitado como turista três vezes, arrumei a bagagem e fui testar a sorte. E que sorte! Duas semanas depois tinha conquistado o meu primeiro trabalho, uma escola de idiomas, ensinar português para argentinos.
Com meu primeiro emprego no exterior, também surgiram oportunidades de realizar alguns trabalhos como Tradutora. Não, não tinha o diploma universitário, porém tinha o conhecimento e a vontade. Fiz, e modéstia a parte, fiz bem feito.
Também mergulhei na etapa mais movimentada de minha vida literária, tudo em espanhol, um mundo de descobertas, de letras e de sons.
Anos se passaram, deixei Buenos Aires e fui morar em uma cidade vizinha, comecei a trabalhar com um público diferente. Um pouco entediada com a vida na cidadezinha, decidi fazer uma nova faculdade, momento de outra grande escolha: Tradução ou Desenho Gráfico na universidade pública de Lanús? Quem respondeu Tradução, errou. Optei por Desenho Gráfico.
Dois anos depois viria a provar uma leve sensação de arrependimento. Leve pois creio que todo caminho regala conhecimento e, portanto, não é jamais uma perda de tempo. Mas, devo admitir que essa andança por um território diverso serviu, mais do que tudo, para reafirmar minhas paixões pelas letras, pelas línguas, pelo ensino e pela tradução.
Retornei ao Brasil após 11 anos nas terras “hermanas”, comecei a lecionar espanhol para brasileiros e português para estrangeiros. Trabalhando como professora de português para estrangeiros, conheci alunos, pessoas interessantíssimas de diferentes partes do mundo. Enquanto ensinava, aprendia e me maravilhava.
Encarei minha primeira pós-graduação de Ensino de Língua Espanhola na Universidade Estácio de Sá. Lá, as turmas de Ensino de Línguas e de Tradução frequentam as mesmas aulas nos primeiros meses e são separadas somente quando começam as aulas mais técnicas de pedagogia e tradução. Consequentemente, parte dos amigos conquistados durante o curso foram para a turma de Tradução e pude acompanhar um pouco de suas trajetórias, dividida entre o caminho que tinha escolhido e o caminho que eles trilhavam.
Nunca me arrependi da escolha pois o aprendizado na área de ensino foi espetacular e muito útil. Fiquei sim, curiosa e sedenta por uma segunda pós. E ela ocorreria um ano mais tarde. Finalmente eu cursava Tradução de Línguas.
E foi assim que terminei formada também em Tradução, embora meu diploma oficial seja de tradução Português/Inglês, eu me especializo agora em Espanhol, Francês e Italiano.
É possível um tradutor de múltiplas línguas? Quando a paixão é tão grande, sim, é possível. Amo idiomas, amo o processo de tradução e, no fim, todas essas línguas irmãs desembocam no lago onde mais me espelho: a amada língua portuguesa.
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